Acordei com o rosto dela rondando a minha mente feito espectro. Pensei que já havia esquecido dela, de cada detalhe que pudesse haver em sua aparência. Ledo engano. Tenho vontade d gritar por um pouco de paz. Me levanto e me forço até a janela. Lá embaixo os carros passam, as pessoas em sua indiferença cotidiana, sem se preocupar com nada a não ser com o que quer tome de preocupação suas lindas cabeças problemáticas. Daqui pra baixo tudo é rápido. Não sequer um momento para o último pensamento, nem para arrependimento. Sonhei que tinha o peito estourado por um balaço. A impessoalidade da figura, mero contorno, vaga silhueta, aponta a faca de lâmina brilhante para o meu coração, e vejo-o pulsante, ainda, até que o primeiro naco suma numa dentada sórdida. Da figura, apenas o sorriso...
Quem sou eu? Outro dia desses me fizeram essa mesma pergunta. Não soube o que responder. Acho mesmo que eu sou uma incógnita, algo que permance por aí, vago, sem rumo, num caos particular. Sem experiências que possam afirmar por elas próprias que tipo de pessoa tenho diante de mim todas as vezes que me olho no espelho. É domingo. O sol arde lá fora no alto, cagando seus toletes flamejantes em cima de nós, que nos achamos tão superiores a ponto de crer que somos a maravilha da criação, e não temos a humildade de perceber que estamos perdidos no último rincão do universo.
"Where are you golden boy, where's you famous golden touch?", pergunta Leo Cohen em "Dress rehearsal rag". E cada palavra cantada, uma farpa aguilhoante. Uma lembrança. Difícil. Punhos cerrados. Veias saltam em alto relevo gritante. E nem me lembro do teu nome. Será que algum dia ela/você vai... Eu não sei. Eu não me lembro mesmo do seu nome. Carla, Cláudia... quem sabe. Em sonhos te possuí, mas o problema deles é a natureza etérea que não permite que eles se concretizem, que eles permaneçam guardados no cofre forte do inconsciente.
Esse dia vai demorar a passar. Qualquer hora as paredes se echam e aí eu quero ver como é que vai ser, hein, como é que vai ser? A vizinhança vai ouvir os gritos? Só o cheiro que vai ser sentido, Carla, ou Cláudia, só o cheiro, o odor nauseabundo da gosma de carne e ossos triturados. O disco do Cohen é "Songs of Love and Hate". Uma vez você comentou comigo que não entendia o que ele cantava, vai ver por causa do parco conhecimento da língua inglesa que você tinha na ocasião. A gente tinha acabado de se conhecer, mas você não lembra. Não entendia o que ele cantava, mas entendia todo o amargor de sua voz. Talvez o erro tenha sido meu. Te mostrei um a obra de tão grande violência espiritual e emocional que não condizia com o momento especial pelo qual passávamos.
Carla/Cláudia, não tenho mais ânimo para continuar escrevendo. À medida que cada linha aparece, aumenta a dor e a minha angústia por saber que por ter te revivido eu vou permanecer em claro. E o sol vai continuar brilhando, mas com sombra além.
